No momento em que escrevo (sexta-feira, 12:00), caminhamos para o fechamento de uma semana positiva para os mercados. Após a correção observada entre a conclusão da reunião do FOMC na semana passada e a sexta-feira, os mercados locais reagiram bem aos eventos políticos e, principalmente, à reunião do COPOM que cortou a taxa SELIC para o patamar sem precedentes de 2.25%. No exterior, prepondera a preocupação quanto a possível reaceleração nas contaminações da pandemia, mas as notícias da China melhoraram na quinta-feira, tal qual anuncio de um tratamento com impacto relevante ocorrido na terça-feira. Finalmente, os dados mais recentes dos EUA seguem mostrando recuperação da economia global.

Nos EUA, três dados reforçaram a tônica de que a recuperação da economia americana poderá ser mais rápida do que o antecipado no começo do trimestre. Tanto a indicação das vendas no varejo, como os indicadores cíclicos do setor de manufaturas compilado pelas sucursais regionais do FED em Nova Iorque e na Filadélfia indicam que a reabertura está impactando significativamente a atividade. Dada a base baixíssima de comparação no mês anterior, esta parece uma conclusão lógica. Mantemos nosso comentário anterior que a retomada trará variações mensais de grande magnitude, mas que em termos de nível a economia americana e global ainda demorará para repor o produto perdido ao longo destes meses de isolamento social.

Fora isso, as notícias em torno da evolução da pandemia mostram a manutenção do avanço em alguns estados dos EUA. No entanto, o surto que preocupava os mercados na China parece sob controle (segundo notícias locais veiculadas na quinta-feira).  Ao mesmo tempo, a divulgação de um novo protocolo de tratamento utilizado na Inglaterra foi causa de alento ao demonstrar que há chance de redução na quantidade de óbitos por infectados do COVID-19.

O cenário ainda é desafiador neste quesito e novos surtos não podem ser descartados na medida em que a economia global reabre. A melhor perspectiva, para além de “aprender a viver com o COVID19” ainda é de que se descubra o quanto antes uma vacina e que ela seja aplicada em larga escala global para retomada de confiança dos agentes econômicos. Por enquanto, seguimos na espera desta boa notícia.

No Brasil, a semana foi repleta de novidades em termos de política, economia e política monetária. No primeiro campo, mantemos a tese de que a contínua aproximação entre o presidente Jair Bolsonaro e os partidos do Centro no parlamento (“centrão”) tende a reduzir as chances de votações de projetos heterodoxos. Evidentemente, estamos sujeitos a uma profusão de notícias que implicam a família do presidente (relacionados ao caso Queiroz), o que transforma a equação de equilíbrio. No entanto, as sinalizações do presidente são inequívocas no sentido de diálogo com a base aliada. Nas evoluções de Brasília, aguardamos para semana que vem o avanço da votação do novo marco legal do saneamento no senado.

Em termos econômicos, a divulgação da PMC, da PMS e do IBC-Br reforçaram nossa tese de que abril pode ter sido o pior mês para a atividade econômica em consequência da pandemia. As evidencias sobre maio e junho ainda são escassas, mas há razoável chance de termos atingido um ponto de inflexão neste período, iniciando uma recuperação sequencial da atividade. Evidentemente, a manutenção da recuperação depende do relaxamento das medidas de isolamento social, consequência direta de maior controle da pandemia.

Finalmente, o Banco Central cortou a taxa básica de juros (SELIC) em 75bps para o patamar de 2.25%, em linha com nossas expectativas. O comunicado adotou tom mais cauteloso do que o anterior, indicando que nos aproximamos efetivamente do final do ciclo de cortes. Ainda assim, há ressalva sobre possíveis novos ajustes, em magnitude menor do que os dois últimos. Isto, somado as nossas expectativas de inflação e as expectativas de inflação do mercado levam a crer que o fim do ciclo levará a SELIC ainda para a taxa de 1.75% este ano, antes da gradual elevação da taxa em meados do ano que vem.

Ou seja, os dados econômicos ensejam algum tipo de otimismo com a atividade, que é suportada tanto pela reabertura econômica como por taxas de juros globais em patamares extremamente baixos. Ao mesmo tempo, o risco permanece (para o Brasil ao menos) em torno da dinâmica da pandemia e da evolução política em Brasília. Soma-se aqui nosso alerta permanente sobre a debilitada posição fiscal em que nos encontramos, o que por um lado reduz o grau de apoio que o Estado pode dar para a economia e, por outro lado, antecipa a conta para ajustar este apoio. Seguimos otimistas com a bolsa face ao cenário de (amplo e sem precedentes) suporte monetário.