No Brasil, a ata da última reunião do COPOM e o IPCA foram divulgados na terça-feira (10/08) pela manhã. No primeiro, o Banco Central reforçou a justificativa em torno de uma elevação de 1% da taxa de juros, apresentando uma longa discussão sobre o balanço de riscos e reforçando, em nossa visão acertadamente, que a reabertura da economia traz riscos altistas para a inflação de serviços.

Nossa expectativa é justamente que este componente, que tem características inerciais (i.e., “de memória”) marcantes se torne mais relevante daqui até o final do ano. Isto se soma à dinâmica de industriais ainda pressionada. Ou seja, olhando meramente por uma ótica da inflação nos próximos meses, resta evidente a direção de atuação do Banco Central. Neste sentido, reforçamos a nossa projeção de SELIC chegando a 7,5% este ano, com ao menos mais uma elevação de 1% nos juros na reunião de setembro.

Nos EUA, a inflação também foi o destaque da semana com uma composição bastante interessante. Tanto a alimentação no domicílio como fora dele mostrou forte aceleração comparado ao mês passado. Na primeira, a leitura saiu de 0,7% para 7,6%. Na segunda, o salto foi de 0,8% para 6,2%. Em energia, novamente um avanço significativo em gasolina, que já registra avanço de 41,8% YoY (NSA).

No subjacente há forte desaceleração da parte de bens. Isso parece especificamente relacionada a desaceleração em carros usados, que registraram avanço de somente 0,2% comparado a 10,5% no mês anterior. Já vestuário manteve a tendência de desaceleração e apresentou leitura flat este mês.

O número reforça a perspectiva da transitoriedade da inflação nos EUA. Diversos componentes permanecem fortes e a queda do desemprego enseja algum risco em termos da inflação de moradia à frente. No entanto, entendemos que o avanço nos dados de mercado de trabalho e salários serão relevantes para a perspectiva de tapering. Isso foi reforçado por aparições de vários membros do FOMC ao longo das últimas duas semanas. Por enquanto, mantemos nossa projeção de anúncio no último trimestre deste ano e implementação em janeiro.

Ou seja, enquanto vemos um cenário inflacionário mais pressionado no Brasil forçando a autoridade monetária a atuar de forma, como ela mesmo descreve, mais tempestiva, nos EUA há algum sinal que confirma a transitoriedade de algumas pressões de preços. Ainda assim, o semestre trará uma intensa discussão sobre a possibilidade de redução dos estímulos a partir do final do ano ou começo do ano que vem.

Adiante, os ruídos políticos de Brasília podem seguir impedindo que os mercados locais se beneficiem da ampla liquidez global. Ante isso, monitoramos também a situação da covid no sudeste asiático, Europa e EUA. De qualquer forma, o PIB do segundo trimestre deverá mostrar avanço de 0,2%.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.