A semana foi marcada, além de desenvolvimentos políticos relevantes, pela divulgação do IPCA de agosto, que registrou forte avanço de 0,87% no mês. Ante um cenário inflacionário desafiador para a autoridade monetária, vale a pena nos debruçarmos sobre os principais determinantes da inflação neste momento. Neste momento faremos uma explanação cobrindo aspectos da teoria e, na semana seguinte, destrincharemos alguns fatores na prática da conjuntura inflacionária.

Inflação, definida amplamente como um processo contínuo de elevação de preços, pode ser analisada através de diversos prismas. Nosso foco aqui será o de avaliar a inflação pela ótica da demanda e também a inflação pelo lado da oferta.

Em um modelo macroeconômico contemporâneo, costumamos trabalhar em cima de três equações. A primeira, chamada de Curva de Philips Neo-Keynesiana (NKPC, na sigla em inglês) relaciona à inflação atual com as expectativas de inflação à frente e com hiato de produto. A segunda, a curva Dinâmica IS, relaciona o hiato do produto à trajetória de juros (exógena) natural e real. Finalmente, o modelo requer também uma regra de Taylor, que dá a forma de atuação do Banco Central ante desvios da inflação em relação à meta ou do hiato em relação a seu nível neutro.

Apesar de ser uma representação simples da realidade, o modelo permite uma série de conclusões. Primeiramente, há o aumento da inflação quando a expectativa de inflação à frente se eleva. Como muito bem colocado em um texto de Ricardo Reis, a expectativa de preços mais altos no futuro leva agentes econômicos a consumirem mais agora. Esta elevação da demanda no presente, por sua vez, acaba levando a um aumento de preços.

Por outro lado, mas também relacionado às expectativas de inflação, temos a possibilidade de avanço dos preços em decorrência de decisões de empresas. Isto decorre, em grande parte, do fato de que muitas empresas não podem redefinir os preços recorrentemente (leia-se, saímos do cenário da década de 80 onde os preços de alimentos no supermercado eram reajustados várias vezes ao longo de um único dia).

Dado que as empresas não desejam reajustar sempre seus preços, elas levam em consideração as expectativas de inflação na hora desta definição. Se elas esperam inflação elevada à frente isto é percebido como um potencial fator que reduz a sua margem de lucro desejada ao longo do tempo. Assim, será necessário implementar um grande reajuste de preços, sempre que possível, de forma a compensar estes desvios de preços.

Em suma, temos dois processos amplamente relacionados às expectativas de inflação: um pelo lado dos consumidores e outro pelo lado das empresas. Note-se que não entramos aqui em fatores relacionados à posição do governo neste cenário, mas deixaremos isto para o artigo da próxima semana. De toda forma, o avanço das expectativas de inflação para este ano e o ano que vem preocupa justamente porque tem ampla chance de levar a um aumento da inflação realizada que fique significativamente acima da meta do Banco Central (3,5% em 2022).

Como sabemos, processos inflacionários levam a uma série de consequências negativas para a economia e, de forma mais direta, a realização da inflação elevada combinada à alta das expectativas está conduzindo o Banco Central a adotar um amplo aperto da política monetária. Consequentemente, e atrelado a outros fatores, as expectativas do PIB para o ano que vem estão em queda (como destacado em nosso comentário da semana passada).

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.