A semana foi menos movimentada do que as duas últimas, porém mais uma vez temos sinais de cautela pesando sobre os mercados. No Brasil, a onipresente questão fiscal foi novamente destaque. Já no cenário externo, a correção dos ativos americanos causa questionamento sobre a volatilidade em direção ao ciclo eleitoral americano.

Em termos econômicos, o cenário externo teve poucos desenvolvimentos. Por um lado, a divulgação do Payroll nos EUA (compilado de indicadores de mercado de trabalho com latência mensal) mostra que a recuperação da economia não sofreu com a aceleração da pandemia no sun belt ao longo dos últimos três meses. As vagas de trabalho destruídas no começo do segundo trimestre seguem em recomposição, enquanto a taxa de desemprego cai de forma acelerada. Ainda estamos longe de apagar todo o efeito da crise no mercado de trabalho, mas sem dúvida houve uma recuperação mais rápida do que o antecipado.

Por outro lado, os dados de atividade medidos pelo PMI na Zona do Euro mostraram algum leve arrefecimento, o que pode ensejar preocupação quanto a pujança do segundo momento da recuperação econômica. O destaque nesta região, no entanto foi o surgimento, pela primeira vez, de incomodo de oficiais do Banco Central Europeu por conta da força do Euro, que poderia ter impacto negativo sobre a atividade no bloco. Atribui-se a este incomodo o início da recuperação do dólar em um movimento corretivo contra as principais moedas.

Aqui no Brasil, tivemos finalmente a entrega do projeto orçamentário do governo na segunda-feira. O fato principal é que o governo prevê ainda vários anos de déficit nas contas públicas, o que somente reforça a nossa cautela com a questão fiscal. Já comentamos isto recentemente, e vale ressaltar aqui novamente: a equalização da questão fiscal que não seja por via inflacionária exigirá empenho por parte do executivo em mobilizar a base e guiá-la em direção a reformas estruturais relevantes. Infelizmente, a sinalização neste sentido permanece, no melhor dos casos, dúbia.

A atividade por outro lado mostra novos sinais de força pelo lado da indústria. A pesquisa industrial mensal (PIM) surpreendeu nossas expectativas e as expectativas do mercado, mostrando forte ritmo de recuperação ao longo do mês de julho. Nossa expectativa é de manutenção deste comportamento ao longo do terceiro trimestre. Ao mesmo tempo, nosso cenário base ainda contempla IPCA bem-comportado, ainda que pressionado por grupos específicos como alimentos. Reconhecemos, no entanto, que os riscos aqui são (moderadamente) altistas.

Em suma, para alocação vemos um crescente do cenário cauteloso que comentamos anteriormente, com taxas de juros extremamente baixas junto com aceleração da atividade e preocupação fiscal deveria beneficiar alocação em títulos vinculados a inflação. Ao mesmo tempo, a perspectiva continua apontando bolsa como uma alternativa factível (ainda que com riscos maiores). Em termos de dólar, entendemos o cenário de dólar fraco ensejado pela mudança de postura do FED anunciada ontem, mas acreditamos que o caso especifico do real seja de cautela por conta do conturbado cenário fiscal.

Por Felipe Sichel, estrategista.