A penúltima semana de agosto chega ao fim com a evidência de diversas forças opostas atuando sobre a economia e os mercados no Brasil. Entre uma agenda de indicadores econômicos locais vazia, o avanço da variante Delta em economias desenvolvidas e o incansável ruído político vindo de Brasília, faz sentido pensar o que pode nos tirar da dinâmica negativa para mercados.

Por diversas vezes utilizamos a expressão “when it rains, it pours” neste espaço para descrever aquela situação de que, quando uma coisa dá errado, tudo parece caminhar no mesmo sentido. Seria, sem sombra de dúvidas, uma expressão absolutamente válida para estas últimas semanas no Brasil.

Os mercados globais observam atentamente o avanço da variante Delta. Economias relevantes, como a Alemanha registram avanço consistente no número de casos, o que evidentemente leva a um aumento da incerteza e da probabilidade de novas medidas de restrição se fazerem necessárias. Contribuiu para esta sensação de incerteza a perspectiva de que doses de reforço de vacinas devem ser necessárias para garantir imunidade de longo prazo.

Por outro lado, observa-se que o número de internações e óbitos permanece, felizmente, baixo se comparado a quantidade total de novos casos. Ou seja, há evidência (referendada por artigos acadêmicos e análises estatísticas) de que as vacinas são eficazes mesmo contra a variante Delta.

Outro fator que contribui para a volatilidade nos mercados são as indicações recentes de que a economia chinesa desacelera. Dado o peso deste país na cadeia produtiva global e da relevância de seu mercado interno, resta evidente que receios em relação a trajetória de crescimento de médio prazo vão impactar nas projeções globais de PIB.

Aqui fazemos uma ressalva que nos parece relevante: a estratégia de combate a Covid adotada pelo governo chinês tem um impacto econômico significativo. Naquele país, isola-se imediatamente uma determinada localidade após a detecção de um único caso. No exemplo mais recente, um grande porto e ponto relevante do fluxo de contêineres global foi fechado por conta de um trabalhador contaminado. Ainda que esta estratégia tenha mostrado eficácia em manter o número de casos comparativamente baixo, não é difícil perceber que o impacto econômico tende a ser mais severo do que países que foram mais lenientes.

Neste cenário de incerteza, o Banco Central dos EUA (FED) divulgou na última quarta-feira (18/08) as minutas de sua reunião realizada ao final de julho. Apesar de ser um documento considerado defasado (visto que é publicado três semanas após a realização da reunião), ainda assim ele costuma trazer algumas informações relevantes para a compreensão da estratégia do Comitê de Política Monetária nos EUA (FOMC). Nota-se especificamente que o FOMC pretende seguir com a discussão sobre tapering (i.e. redução no ritmo de compra de ativos) apesar do aumento da incerteza em relação à variante Delta.

Nossa visão difere do mercado neste aspecto. O fio condutor do racional do FOMC é retirar o estímulo de forma gradual para que não se repita um episódio semelhante a 2013 (taper tantrum). Ou seja, mantemos a perspectiva de que o tapering comece efetivamente em dezembro deste ano ou janeiro do ano que vem.

Por outro lado, dado que o tesouro americano também reduzirá o ritmo de emissão de títulos e que a bolsa americana se encontra em patamares elevados por conta de juros reais baixos, a expectativa é que o aperto das condições financeiras gerado pelo tapering (apesar da volatilidade de curto prazo) seja pequena.

No Brasil, como de costume, o cenário é mais complexo. Os riscos fiscais se acumulam em torno da PEC dos precatórios, da Reforma do Imposto de Renda e das revisões no Bolsa Família. Por outro lado, a projeção de longo prazo fica debilitada por conta de evidente risco ao Teto de Gastos representado pela eleição (e após ela também). Finalmente, o entrave institucional entre os três poderes da república complica qualquer cenário por levar parte dos agentes a acreditar que a agenda econômica só avança agora em 2023.

Assim, os prêmios de risco em relação à economia brasileira seguem aumentando. As curvas de juros futuros subiram e ganharam em inclinação, a bolsa caiu e o dólar desvalorizou. Isto se traduz em aperto das condições financeiras, o que somado ao aumento da SELIC e a reversão dos preços das commodities globais (consequência dos riscos descritos anteriormente) leva a queda na projeção do PIB para o ano que vem. Por outro lado, riscos inflacionários seguem absolutamente presentes.

Porém, o destaque aqui é justamente que a confluência de notícias negativas levou a uma reação obviamente adversa do mercado. No entanto, pequenos sinais de estabilização podem trazer efeitos significativos. Por exemplo, avanço na discussão dos precatórios por um caminho responsável ou confirmação do aparente apaziguamento relativo entre poderes devem ser relevantes neste sentido aqui no Brasil, enquanto a manutenção de baixos índices de hospitalização e óbitos em economias desenvolvidas pode trazer um alívio em relação as projeções de longo prazo.

De toda forma, se o equilíbrio é instável e não temos certeza para onde ele se moverá, cautela segue recomendada. Na semana que vem, atenção especial para Jerome Powell em Jackson Hole (27/08) com possíveis novidades sobre o tapering e também a divulgação do IPCA-15 aqui no Brasil, que ainda deve mostrar uma leitura pressionada.

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.