Alertamos continuamente para a questão fiscal no Brasil ao longo das últimas semanas, com o risco crescente em torno da discussão da trajetória fiscal. Infelizmente, os riscos esta semana em torno da questão se intensificaram e foram sentidos de forma evidente sobre os preços de ativos e no noticiário. Em termos de dados econômicos, as surpresas foram no geral positivas, mas observamos mais uma vez que no curto prazo a política se sobrepõe à economia.

Comentando o cenário externo, devemos comentar um fator ainda do final de semana passada. O Presidente Donald Trump optou por editar medidas executivas para garantir a extensão do auxílio desemprego suplementar durante mais um mês. Com isso, reduziu-se fortemente o incentivo para republicanos e democratas do Congresso chegarem a um rápido acordo (que se fazia necessário na semana passada). No entanto, a magnitude do auxílio fiscal englobado nas medidas de Trump é consideravelmente menor do que os USD 1.5-2 trilhões que esperávamos como resultante de um acordo no Congresso. Assim, mantemos a perspectiva de que eventualmente ambos os partidos chegarão a um acordo que permita estímulo fiscal maior, o que resulta positivo para evitar rupturas na recuperação da economia americana.

De resto, a economia global segue em processo de recuperação do choque do COVID-19. A sustentação monetária e fiscal é condição necessária, mas não suficiente para a sustentação dos mercados. Precisamos que a dinâmica da pandemia permaneça sobre controle (i.e., não voltemos a situação de lockdown generalizado) e que o crescimento econômico permaneça em trajetória ascendente. Fato é que estamos em um período de incerteza considerável e que esta deve se estender, oscilando, enquanto persistirem dúvidas sobre o controle do COVID-19. Por sua vez, a elevada incerteza impactará nas decisões dos agentes econômicos, mantendo investimento e consumo pressionados.

No Brasil, todo o foco recaiu sobre o stress político resultante da pressão por mais gastos públicos. Na tentativa de não nos determos no relato meramente dos fatos, que são de amplo conhecimento, vale ressaltar alguns aspectos sobre a dinâmica desta semana. Por um lado, temos crescente confirmação de que a base do presidente Bolsonaro na Câmara, por mais que não seja enorme, é suficiente para fazer valer alguns desejos do executivo no plenário, haja vista a capacidade do governo em manter o veto ao BPC no começo da semana.

Com o controle desta base, faz-se necessário que o executivo sinalize suas preferências em termos de agenda e justamente aí reside o risco, visto que a sinalização do governo para medidas que desafiam o nosso frágil cenário fiscal vem crescendo, seja por desejo de mais obras, extensão do auxílio emergencial ou outras medidas. Fato é que a nosso endividamento acumulado no passado não permite que o nível de dispêndio atual seja mantido sem consequências em termos de estabilidade macroeconômica, o que evidentemente passa a ser percebido e precificado pelo mercado.

Assim, o compromisso com a âncora do teto de gastos é essencial neste momento, mas reconhece-se que por vezes a sinalização do presidente tem sido dúbia, o que obviamente levanta dúvidas sobre a viabilidade de retomada da agenda de reformas proposta pela equipe econômica uma vez que passe o pior momento da pandemia. Mais do que isso, a “debandada” leva naturalmente ao questionamento se não veremos novas baixas na equipe econômica e pergunta-se, obviamente, se o próprio ministro não poderia eventualmente desistir de sua posição atual.

As consequências de todos os fatores elencados anteriormente são expressas de forma clara na Ata do Copom divulgada na terça-feira: resta evidente que a manutenção dos parâmetros atuais de política monetária (absolutamente excepcionais sob perspectiva da história brasileira) são possíveis somente por conta do teto de gastos. Uma alteração deste cenário levaria a uma severa reavaliação do patamar possível para a taxa SELIC e também dos preços de ativos em geral. Ou seja, o risco em torno da questão é real e tem consequências evidentes para a nossa trajetória de crescimento à frente.

De resto, os dados de atividade divulgados na semana reforçam o cenário de um segundo trimestre menos pior do que o antecipado há alguns meses. Ainda veremos uma contração significativa do PIB, mas tanto seu pior momento, como o ritmo de retomada parecem mais positivos. Vale ressaltar, no entanto, que o setor de serviços está em uma trajetória de recuperação menos acelerada do que o observado na indústria ou no comércio e que a sustentação da retomada depende evidentemente da dinâmica da pandemia no Brasil.

Em suma, o cenário torna-se mais desafiador e o cronograma de apresentação da LDO ao longo do mês de agosto deve manter o noticiário em torno da questão fiscal aquecido. Neste sentido, vemos com cautela alocações em bolsa, buscando proteções que possam blindar os rumores (ainda que não esperemos a concretização de nenhum deles) em torno do rompimento total ou parcial do teto. De resto, a curva de juros mostra stress também por conta do fiscal e, uma vez superada esta discussão da LDO, poderá apresentar maior tranquilidade nos vértices mais longos. Ainda assim, reconhecemos que os movimentos desta semana poderão se estender pelo restante do mês.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.